sexta-feira, 31 de outubro de 2008



24 de Outubro de 1143


Era uma noite de Inverno. A chuva caía intensa, em gordas gotas de água. O som dos trovões fazia estremecer a terra e os raios rasgavam o céu com tamanha fúria que parecia que o mundo ia acabar…

Os lobos uivavam, as corujas gritavam, os morcegos gemiam e os abutres aguardavam…a Morte estava à espreita!

Naquela noite, os gambuzinos estavam inquietos. As mães gambuzino contavam histórias aos seus filhotes para os sossegar e os gambuzinos machos, velhos e novos, estavam atentos. Preparavam-se para o pior.

Quando de repente….

TUM! TUM! TUM!

Olharam uns para os outros e estremeceram. Fez-se um silêncio terrível!

O mais pequeno dos gambuzinos, o PirilauJaquim, afoito e destemido, avançou sem medo…

Destrancou uma, duas, três, quatro trancas e abriu a porta…

Do lado de fora, uma figura sem rosto, vestida de preto, tão alta, tão alta que parecia não ter fim, inclinava-se sobre o gambuzino franzino e indefeso.

As mães gambuzino fecharam os olhos, apertaram contra si os seus filhotes e esconderam-se onde conseguiram.

Os gambuzinos machos, embora se tivessem preparado para aquele momento, petrificaram! Suavam das mãos, dos pés, das orelhas, dos olhos…Não conseguiam respirar…

Só o pequeno Pirilau, na sua inocência (pois não entendia o que se estava a passar), permanecia calmo e sereno.

Olhou para cima e num só gesto estendeu a mão à Morte e convidou-a entrar.

- Sai da chuva. Vais-te constipar!...

A Morte, admirada e surpresa, estendeu a sua mão, deixou-se tocar e entrou.

O pequeno Pirilau, puxou uma cadeira e ofereceu-a à Morte. Olhou em volta…Ninguém se mexia. O tempo parecia ter congelado.

Foi buscar um pouco de sopa quente que a sua mãe fizera e ofereceu-a.

A Morte, sem dizer uma palavra, colher após colher, comia com satisfação.

Olhava em redor à espera de encontrar o desespero, a desconfiança, a doença, a amargura, o egoísmo, a tristeza … Mas nada viu!

À sua volta descobriu criaturas minúsculas, com expressividade, sem malícia. Foi invadida, sem esperar, de uma sensação quase mágica, nunca experienciada.

Sentada naquela pequena cabana, toda ela feita de madeira, admirava como esta transpirava de esforço colectivo, amor incondicional, como respirava dedicação e orgulho.

De repente, interrompendo os seus pensamentos, o pequeno Pirilau perguntou:

_ Quem és tu? Como te chamas?

_ Eu? Eu sou a Morte!

_ Ui, que nome tão feio! Não tens outro?

Surpresa, a Morte respondeu:

_ Outro nome? Não, sempre me chamaram assim…

_ Deixa, tenho 103 irmãos e cada um com um nome mais esquisito do que o outro. Eu sou o PirilauJaquim, depois há o João Minorcão, a Carolina Rabina, o Vasco Brincalhão, o Miguel Orelhão, o Eduardo Comilão, o Fred Pintarolas, a Rita Teatral, a Locas Beijocas, a Sara Risonha, a Rosarinho Docinho e a Rita Princesa. Como vês, só nomes esquisitos. Pensando bem, Morte não é assim tão mau.

Como que por magia, à medida que o PirilauJaquim dizia cada um dos nomes dos seus irmãos, a Morte diminuía um centímetro. Na sua cara iam-se formando uns grandes olhos, delineando-se um bonito nariz, desenhando-se uma pequena boca e as maçãs do seu rosto, ficando coloridas…

Durante aqueles momentos, a chuva parou, os relâmpagos sossegaram, os trovões cessaram…A casa dos gambuzinos, a pouco e pouco, enchia-se de luz!

Os pequenos gambuzinos, um a um, foram-se aproximando da Morte sem medo.

Uns puxavam as suas vestes, outros sentavam-se ao seu colo, brincavam com as suas orelhas, esticavam os seus lábios, contavam os dedos das suas mãos…

Não tardou que se ouvissem risos, histórias, muitas histórias, anedotas até!

Durante cerca de uma hora a Morte não abriu a boca. Apenas sorria, ria, gargalhava, com as cócegas que os pequenos lhe faziam, com as histórias que lhe contavam.

Sem mais, levantou-se calmamente e encaminhou-se para a porta. Passou as mãos pelas antenas de cada um dos pequenos gambuzinos e disse:

_ Está na hora de ir embora. Já não chove…

Os gambuzinos viram-na partir e ainda conseguiram ouvir um “Obrigada”.

Desde esse dia, até aos dias de hoje, os gambuzinos são poupados pela Morte.

Vivem há centenas de anos. Onde? Ninguém sabe. Há quem diga que já os viu, mas até hoje ninguém o conseguiu provar. Por isso as crianças, de geração em geração, se entretém a correr atrás dos gambuzinos, em noites de lua cheia. Eles, os gambuzinos, brincam com elas às escondidas, sem nunca se deixarem apanhar…

Vitória, vitória acabou-se a história!


GambuzinaBocaDaço

Akatoka 2008

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